Notícia Vestimentas de um Mandarim
02 de julho de 2013 - Orcedino Junior
Vestimentas de um Mandarim

Vivemos em momentos de desenfreado consumismo voltado em grande parte para o exterior da pessoa, com a preocupação da imagem física, objetivando receber elogios pelas vestimentas, pelo corpo bem moldado e uso de produtos de beleza e outros adornos. Isto pode ser positivo quando a parte interna também tem a mesma beleza. Quase sempre esta parte externa é presença de vaidade no ser humano.

O que é vaidade? No dicionário Aurélio, “é o desejo imoderado de atrair admiração; qualidade do que é vão, ilusório”. Uma pessoa vaidosa deseja criar uma imagem pessoal para transmitir aos outros, com o intuito de ser admirada, o que nos lembra “Narciso”.

Narciso, palavra grega derivada do vocábulo “narke”, significa entorpecido. Narciso simbolizava a vaidade e a insensibilidade. Sua parábola tem sido uma grande fonte de inspiração há pelo menos 2 mil anos.  Tornou-se símbolo de frivolidade e apego às aparências.

A deusa Némesis condenou “Narciso” a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado pela sua beleza, deitou-se no banco do lago e definhou, olhando-se na água e se embelezando. A beleza de Narciso era tão incomparável que ele pensava ser semelhante a um deus. Era a consumação perfeita e total da vaidade.

A vaidade é decorrente do orgulho e dele se aproxima. Suas facetas mais comuns são apresentação pessoal exuberante, gestos repetitivos, falar demasiado, evidência de qualidades intelectuais, não poupando referências à própria pessoa ou a algo que realiza. Esforço em realçar dotes físicos, culturais ou sociais, intolerância para com aqueles mais humildes, às vezes não evitando a eles referências agressivas e fixado constantemente em ocupar cargos de destaque.

Não reconhece de sua culpabilidade nas situações de descontentamentos e forte obstrução mental na capacidade de se autoanalisar, não aceita suas falhas ou erros, atribuindo a sorte ou azar acontecimentos com ele ocorridos. O vaidoso tem uma estima exagerada de si mesmo.

Dou continuidade a este artigo, através de um texto que merece profunda atenção, que me chegou pelo deputado estadual maçônico José Manoel de Brito, da Loja “Capela Aparecidense” de Aparecida de Goiânia. Dedicado trabalhador em casas espíritas, conhecido no meio esportivo como representante da Federação Goiana de Futebol, em centenas de jogos em Goiânia e no interior, profissional bancário durante de grande relacionamento. Constante leitor de nossos textos, a quem agradeço pelo envio desta reflexão. Muito apropriada para os dias atuais.

Conta-nos história de um homem que foi nomeado mandarim, uma espécie de conselheiro na China. Envaidecido com a nova posição, pensou em mandar confeccionar roupas novas. Seria um grande homem, agora. Importante.

Um amigo lhe recomendou que buscasse um velho sábio, um alfaiate especial que sabia dar a cada cliente o corte perfeito. Depois de cuidadosamente anotar todas as medidas, o alfaiate lhe perguntou há quanto tempo ele era mandarim. A informação era importante para que ele pudesse dar o talhe perfeito à roupa.

Ora, perguntou o cliente, o que isso tem a ver com a medida do meu manto?

Paciente, o alfaiate explicou:

"A informação é preciosa. É que um mandarim recém-nomeado fica tão deslumbrado com o cargo, que anda com o nariz erguido, a cabeça levantada. Nesse caso, preciso fazer a parte da frente maior que a de trás.

Depois de alguns anos, ocupado com seu trabalho e os transtornos advindos de sua experiência, torna-se sensato e olha adiante para ver o que vem em sua direção e o que precisa ser feito em seguida. Para esse, costuro um manto de modo que fiquem igualadas as partes da frente e a de trás. Mais tarde, sob o peso dos anos, o corpo está curvado pela idade e pelos trabalhos exaustivos, sem falar na humildade que adquiriu pela vida de esforços. É o momento de fazer o manto com a parte de trás mais longa. Portanto, preciso saber há quanto tempo o senhor está no cargo para que a roupa lhe assente perfeitamente."

O homem saiu da loja pensando muito mais nos motivos que levaram seu amigo a lhe indicar aquele sábio alfaiate, e menos no manto que viera encomendar.

Um pouco mais preparado, aprendeu que cargos e funções são sempre responsabilidades que nos são oferecidas pela divindade para nosso progresso. Não há motivo para vaidade, acreditando-se superior ou melhor que os outros.

Lembrou da passagem bíblica, quando Pilatos assegurou a Jesus que tinha o poder de vida e morte, e que em suas mãos estava o destino de suas horas seguintes, o Mestre alertou-o dizendo: "Procurador, a autoridade de que desfrutas não é tua; foi-te concedida e poderá ser-te retirada." De fato isso veio a acontecer. Apenas poucos anos após a morte de Jesus, o poder de Roma retirou do procurador da Judéia, Pôncio Pilatos, toda a autoridade. Ele perdeu o cargo, o prestígio, e tudo que acreditava fosse eterno em suas mãos.

O novo mandarim aceitou a lição e ao assumir o alto cargo, procurou se pautar pela orientação do velho sábio, alfaiate especial, de que a autoridade que nos vejamos investidos deve ser exercida com humildade.

Florbela Espanca poetisa portuguesa nascida em 1894 e falecida em 1930, foi iluminada ao se colocar diante da vaidade, e se expressou inspirada na lição do velho alfaiate, casualmente ou não produzindo a poesia intitulada “Vaidade”:

“Sonho que sou a Poetisa eleita, Aquela que diz tudo e tudo sabe, Que tem a inspiração pura e perfeita,  Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade, Para encher todo o mundo! E que deleita  Mesmo aqueles que morrem de saudade! Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo... Aquela de saber vasto e profundo, Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando, E quando mais no alto ando voando, Acordo do meu sonho... E não sou nada!...”


Barbosa Nunes, advogado, ex-radialista, membro da AGI, delegado de polícia aposentado, professor e maçom do Grande Oriente do Brasil -barbosanunes@terra.com.br.

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