Notícia Televisão
06 de julho de 2015 - Orcedino Junior
Televisão

Alex Mendes*

Na música de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Tony Belotto, tem-se a denúncia, feita ainda em 1985, exatos trinta anos, que a televisão nos prejudica: “A televisão me deixou burro, muito burro demais / Agora todas coisas que eu penso me parecem iguais”, declaram os autores da canção dos anos 1980, teria mesmo a televisão esse poder de alienar, embrutecer, de criar vítimas de uma ideologia dada, e qual é a ideologia da televisão, todas as emissoras têm a mesma ideologia? Talvez sejam muitas perguntas a se responder num texto simples, mas podemos tentar.

A televisão é nossa opção de alienação. Ela abastece-nos de esquecimentos, de distração perpétua, de entretenimento vil. A televisão age no apagamento da memória. Emburrecer-se pela telinha é um luxo da atualidade. Não temos muita escolha, a não ser que esteja disposto a pagar os preços absurdos pelos canais fechados. Mas mesmo assim, não há garantias. A qualidade precisa estar primeiro no telespectador.

A exemplo disso, temos a Rede Globo, rainha inconteste do entretenimento televisivo brasileiro. O seu império cínico inclui a emissora aberta e toda uma cartela de canais da rede fechada para quem puder pagar. Sua emissora aberta, no entanto, raramente apresenta canais de qualidade, opta por repetir fórmulas desgastadas de jornalismo e entretenimento, e não muda, na esperança de estar a formar os seus telespectadores para o futuro, como fez com essa geração que a sintoniza todo dia, em vez de ampliar suas possibilidades desligando o aparelho e se ligando em outra coisa. Hoje, a Imperatriz do Ar consegue se manter dentro de uma suposta filosofia da falta de qualidade, porque sabe que seu público é cativo. E nesse caso aqui, o adjetivo não é usado metaforicamente. É mesmo um cativeiro de mentes, consciências e padrões de gosto. A Globo fabrica a nós, nossa vontade, nossa noção de brasilidade, nosso gosto por futebol, nosso desprezo pela leitura, nossa inércia.

A novela I love Paraisópolis, por exemplo, mostra o quanto é grande o poder da emissora de produzir uma realidade, qualquer que seja. Glamourizando a favela, a emissora conseguiu pasteurizar um chefe de tráfico até que ele virou uma espécie de coronelzinho, assim Caio Castro o pôde encarnar. Esse líder local neutralizado e sem crimes aparentes tenta conquistar a mocinha da favela, vivida por Bruna Marquezine, que é apaixonada pelo ricaço do condomínio ao lado. A ideia é ridícula, mas é referendada por Regina Casé, a voz dos pobres da Globo, a Nossa Senhora da Favela Carioca, que também tem seu programa dominical de expor pobres, ficando rica, absurdamente rica com tudo isso. O interessante é que faltam as pessoas mesmo da favela: as moças de cabelos típicos, descoloridos, ou alisados à força, os top marca-texto, coloridíssimos, as palavras de baixo-calão, o ultrafeminismo de resistência das predadoras sexuais da favela, à moda de Valesca Popozuda, Mc Carol ou Tati Quebra-Barraco, a moral e a lei da favela, o terror diário que muitos vivem. Afinal de contas, é entretenimento, não pode ser qualquer novela.

              A Rede Globo parece ser o fetiche de quase todo ator ou atriz, bons ou ruins, fabricados pela emissora ou cooptados posteriormente, não há Irandhir Santos que resista a um contrato de novela das seis, quando o projeto é diferenciado. A qualidade da Globo parece ser um chamariz interessante, porque produz sonhos. Esses sonhos mostram aos pobres como eles deveriam ser. Qualquer barracão pode ter um monitor pegando a Globo em alta definição. Então, os mais pobres podem se ver nos seus heróis sofridos, bonitos, limpos e de dentes clareados. Os ricos podem se ver nas suas posições de poder. E para que pensar? Precisamos urgente olhar para nós mesmos e avaliar o quanto a televisão nos faz ser os mesmos, seleciona e injeta em nós aquilo que devemos sonhar e ter. Devemos resistir às sugestões da telinha em sermos o que somos por meio das novelas, dos programas matutinos que nos mostram o que comer, como cuidar da saúde, dos telejornais que nos ensinam o que devemos saber.  E o que não devemos? Quando vai passar na Globo?

 * Formado em Letras, Português e Inglês pela UEG. Especialista em Educação Inclusiva e Desenvolvimento Humano pela UnB. Mestre em Letras e Linguística pela UFG. É professor de Língua Portuguesa e Inglesa na Rede Estadual de Educação, pesquisa sobre discurso e as formas como os sujeitos se constituem em sociedade. Nasceu em Goianésia, há 34 anos, mas é radicado na Cidade de Goiás.

 

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