Isaías de Jesus Junior morreu. Morreu em Goianésia, internado no Hospital Municipal, esperando por uma vaga de UTI com hemodiálise que nunca chegou. Tinha os dois rins paralisados, pulmão e coração comprometidos. Sobrevivia por sessões de diálise, mas precisava de tratamento intensivo. A família gritou, pediu ajuda, divulgou telefone. O Estado não ouviu a tempo.
Agora, a pergunta que fica ecoando pelos corredores vazios do discurso oficial: para quem, exatamente, o “Estado que dá certo” está dando certo?
O slogan que não cabe no leito
O Governo de Goiás vende a marca do “Estado que dá certo”. Em peças publicitárias, são hospitais novos, números recordes, entregas “históricas”. Mas na ponta, onde a vida acontece ou deixa de acontecer, Isaías virou estatística. A regulação de leitos, que deveria ser ágil e transparente, foi lenta e opaca. Se Goiânia ou qualquer outra unidade tinha vaga, ela não chegou a Goianésia. Se não tinha, a falta escancara o abismo entre a propaganda e a realidade.“Dar certo” não pode ser medido só em quilômetros de asfalto ou em inauguração com faixa. “Dar certo” é quando um cidadão em estado grave não morre esperando o sistema funcionar. É quando a rede SUS cumpre a premissa básica: referenciar o paciente para onde existe estrutura. Isaías precisava de UTI com diálise. O Estado, que se diz referência, não entregou.
A “gestão histórica” que faltou na hora decisiva
Em Goianésia, a prefeitura se apresenta como “gestão histórica”. Histórico foi o abandono. O Hospital Municipal recebeu Isaías, mas não tinha o que ele mais precisava: terapia intensiva com suporte renal. E se não tinha, qual foi o plano? Onde estava a articulação da gestão municipal com o complexo regulador estadual? Onde estava a pressão política, a urgência administrativa, a força de uma prefeitura que se diz diferente de todas as outras?Gestão histórica não é a que publica vídeo bonito. É a que evita que um morador morra por falta de transferência. É a que briga por pactuação regional de leitos antes da tragédia, não depois da nota de pesar. Se a unidade não comporta casos complexos, que se admita publicamente e se cobre do Estado a estrutura necessária. O silêncio administrativo também é uma escolha. E essa escolha custa vidas.
O padrão se repete
O caso de Isaías não é exceção. É método. Falta de leitos de UTI com hemodiálise no interior é denúncia antiga. Médicos, Ministério Público e famílias já alertaram dezenas de vezes. A resposta vem sempre em duas etapas: primeiro, o mutismo da burocracia; depois, a nota oficial lamentando o ocorrido e prometendo “apurar”.Enquanto isso, o marketing segue intacto. O “Estado que dá certo” continua dando certo nas redes sociais. A “gestão histórica” continua histórica nos releases. Mas no chão do hospital, faltou o essencial: vaga, tempo e vontade política.