Notícia Quando o “Estado que dá certo” dá errado: Isaías morreu à espera de UTI
21 de maio de 2026 - Orcedino Júnior
Quando o “Estado que dá certo” dá errado: Isaías morreu à espera de UTI

Isaías de Jesus Junior morreu. Morreu em Goianésia, internado no Hospital Municipal, esperando por uma vaga de UTI com hemodiálise que nunca chegou. Tinha os dois rins paralisados, pulmão e coração comprometidos. Sobrevivia por sessões de diálise, mas precisava de tratamento intensivo. A família gritou, pediu ajuda, divulgou telefone. O Estado não ouviu a tempo.

Agora, a pergunta que fica ecoando pelos corredores vazios do discurso oficial: para quem, exatamente, o “Estado que dá certo” está dando certo?

O slogan que não cabe no leito

O Governo de Goiás vende a marca do “Estado que dá certo”. Em peças publicitárias, são hospitais novos, números recordes, entregas “históricas”. Mas na ponta, onde a vida acontece ou deixa de acontecer, Isaías virou estatística. A regulação de leitos, que deveria ser ágil e transparente, foi lenta e opaca. Se Goiânia ou qualquer outra unidade tinha vaga, ela não chegou a Goianésia. Se não tinha, a falta escancara o abismo entre a propaganda e a realidade.“Dar certo” não pode ser medido só em quilômetros de asfalto ou em inauguração com faixa. “Dar certo” é quando um cidadão em estado grave não morre esperando o sistema funcionar. É quando a rede SUS cumpre a premissa básica: referenciar o paciente para onde existe estrutura. Isaías precisava de UTI com diálise. O Estado, que se diz referência, não entregou.

A “gestão histórica” que faltou na hora decisiva

Em Goianésia, a prefeitura se apresenta como “gestão histórica”. Histórico foi o abandono. O Hospital Municipal recebeu Isaías, mas não tinha o que ele mais precisava: terapia intensiva com suporte renal. E se não tinha, qual foi o plano? Onde estava a articulação da gestão municipal com o complexo regulador estadual? Onde estava a pressão política, a urgência administrativa, a força de uma prefeitura que se diz diferente de todas as outras?Gestão histórica não é a que publica vídeo bonito. É a que evita que um morador morra por falta de transferência. É a que briga por pactuação regional de leitos antes da tragédia, não depois da nota de pesar. Se a unidade não comporta casos complexos, que se admita publicamente e se cobre do Estado a estrutura necessária. O silêncio administrativo também é uma escolha. E essa escolha custa vidas.

O padrão se repete

O caso de Isaías não é exceção. É método. Falta de leitos de UTI com hemodiálise no interior é denúncia antiga. Médicos, Ministério Público e famílias já alertaram dezenas de vezes. A resposta vem sempre em duas etapas: primeiro, o mutismo da burocracia; depois, a nota oficial lamentando o ocorrido e prometendo “apurar”.Enquanto isso, o marketing segue intacto. O “Estado que dá certo” continua dando certo nas redes sociais. A “gestão histórica” continua histórica nos releases. Mas no chão do hospital, faltou o essencial: vaga, tempo e vontade política.

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