Notícia O Poder do Império prevalece e Jalles ganha as eleições em Goianésia
16 de outubro de 2012 - Orcedino Junior
O Poder do Império prevalece e Jalles ganha as eleições em Goianésia

Jalles comemora a vitória comendo tomate.

Por Orcedino Wenceslau Júnior.

A vitória de Jalles Fontoura em Goianésia representa mais uma vez o que o poder econômico pode fazer em uma eleição. Impressionou como o povo goianesiense, sobretudo das camadas mais carentes, permaneceu "aprisionado" à vontade política dos que detém o dinheiro.

Com uma campanha milionária, o tucano conseguiu trazer a Prefeitura de volta para as mãos do grupo econômico que dirige, ao lado do irmão Otavinho. Não foi só uma campanha política. Foi uma afirmação do poder dos Lage em Goianésia. O voto foi fortemente influenciado.

A campanha do 45 para prefeito foi muito mais que uma campanha comum, que acontece a exemplo de outras cidades de Goiás, com o mesmo porte de Goianésia. Foi uma campanha que, alicerçada nos recursos econômicos abundantes, trabalhou os aspectos estratégicos, sociais e culturais da população. O grupo fez uma política técnica.

Acostumado ao ambiente empresarial, o grupo trouxe das empresas, o planejamento e as estratégias tão bem vivencidas no mundo corporativo para a política.

Funcionários e simpatizantes foram transformados em militantes, fiscais, chefes de equipe. Seus comícios e caminhadas obrigatoriamente tinham a presença maciça de seus colaboradores. Nas redes sociais, um time de defensores bem pagos tiveram a missão de apagar a má impressão que Jalles passava a todos de mau administrador, desastrado e, implantar aos poucos, o perfil de empresário empreendedor, honesto, pai exemplar. Interessante frisar este aspecto. Se você postasse uma crítica ao 45 em qualquer perfil do facebook, a qualquer hora do dia ou da noite, rapidamente você teria uma resposta de um dos seus “militantes”.

A política brasileira esteve sempre voltada para os interesses das elites. Após a proclamação da República, surgiu no Brasil o período chamado República Velha ou República dos Coronéis, por causa do grande prestígio político que eles desfrutavam. "Esses grupos controlavam a população através do clientelismo, da troca de favores. Predominava o voto de cabestro, que mantinha o eleitor sob o jugo da vontade política dos coronéis; eram os chamados currais eleitorais. Em Goianésia, o tempo passou e a história não mudou muito; os personagens apenas mudaram de nome.

No aspecto social, sua campanha foi “buscar” os “companheiros“ e “camaradas” de outrora, até então no silêncio, depois da derrota de 2008.  Além dos “amigos”, todos os parceiros, prestadores de serviço, comerciantes ou qualquer cidadão que mantivesse algum tipo de negócio com as empresas do grupo foram “convidados” a participar ativamente na campanha.

Suas promessas de campanha não foram modestas. Dentre centenas, chamam a atenção, a faculdade de medicina, e bolsa para quem quiser nela estudar, hospital universitário, intercâmbio educacional dos professores e alunos com outros países, creche em tempo integral (período noturno e férias), construir 2000 casas sem nenhum custo ou prestação para a população, cobertura de 100% da cidade com rede de internet sem fio gratuito. Mas as propostas eram apenas um detalhe!

O aspecto cultural foi sem dúvida, o mais bem trabalhado pelo 45 nessa eleição. Frases como “....Goianésia não seria nada sem o Lage...”, “....o que seria de Goianésia se não fosse as empresas do grupo...” voltaram com veemência na cabeça da população.  Era o prestígio do grupo que estava em jogo. E todas as pessoas mais conscientes sabem que gerar um emprego não é um ato de bondade. É um ato de lucro, de vantagem, na qual o empresário apenas irá ganhar com isso. Empresários não geram empregos por serem bonzinhos. Geram empregos para lucrar.

Fato interessante aconteceu na última semana. Os administradores das empresas do grupo prometeram benefícios extras aos colaboradores e “convidaram” todos a participarem da caminhada promovida pela coligação às vésperas da eleição. Mais de 2000 pessoas participaram. Uma estratégia bem aplicada com o fim de trazer os indecisos para o seu lado.

Além de "investir"  nos colaboradores das diversas empresas, o que pode ter decidido a eleição, há uma outra característica cultural de quem os defende. Pessoas comuns, que não são funcionários seus, se mostram defensores apaixonados e não medem esforços para convencer qualquer um que a permanência dos Lage no poder é a única saída para Goianésia.

Nas rodas de conversa, conhecidos do 45 impunham sua visão de mundo, ou melhor, de Goianésia. Se proclamavam como os "ungidos", os "escolhidos". Era quase uma devoção religiosa. E quem não estava do seu lado, muitas vezes se sentia que estava até mesmo com uma doença incurável, um transtorno mental, por não votar em Jalles. Inexplicável essa "idealização".

Na segunda pós-eleição, um fato triste e preocupante fechou essa idealização. Filhos de pais do 45 levaram tomates para a sala de aula em várias escolas particulares da cidade, com o fim de zombar e humilhar os colegas de sala que não pertenciam aos "escolhidos". Quais são os valores desses pais, que estimulam os filhos a esta atitude em ambiente escolar? O que esperar dessa nova geração com o mesmo pensamento alienado dos pais?

Em Goianésia, o chamado “empreendedorismo” nunca foi enxergado com outros olhos. Não precisamos agradecer por ele. Não somos seus servos. Não se tratam de heróis aos quais devemos nossas vidas. A posição é inversa; o empresário é que precisa do trabalhador. Mas em Goianésia, o grupo transformou-se em um mito, em símbolo na cabeça de muitos, seja pobre, seja rico.

A campanha do atual prefeito foi uma campanha modesta, longe dos recursos abundantes do outro lado. A realidade deve ser dita: Gilberto Naves é prefeito da população menos favorecida. Fez uma administração para o povo comum. Enfatizou a saúde, que estava abandonada, revolucionou a educação, administrou com ética, sem perseguição, fez uma gestão com honestidade. Isso sempre incomodou a oposição. Pecou na morosidade da consecução do seu projeto habitacional. Talvez, seu único pecado.

Na Câmara Municipal, na qual tinha minoria, Gilberto conseguiu caminhar com o projeto das 2000 casas somente no final de 2011. E a população, influenciada pela avalanche sócio-cultural pregada pela oposição, não aceitou. Suas casas vão ser entregues por Jalles em 2013. Mas a sua administração ao final de seu mandato deixará saudades; não dos privilégios recebidos, mas pela autonomia social, econômica e cultural que foi dada ao povo de Goianésia. A sua eleição consolidaria um novo ambiente para Goianésia, sem perseguição, principalmente pelo respeito dado ao cidadão. É um grande líder político, pai de família e esposo exemplar e homem público íntegro. Deu a sua notória contribuição para a cidade. Sua derrota não foi para outro candidato. Foi para o Império!

O que se pode esperar da volta do grupo ao poder político? Péssimo para a democracia, para o fortalecimento das instituições, para a liberdade. A partir de agora, comandando a maioria dos empregos privados, dos empregos públicos do Município e do Estado em Goianésia, as relações institucionais, socias e culturais tendem a ser obscuras, impostas, de obrigação. Uma ditadura moderna.

Qual o interesse do grupo? Manter os seus interesses. A filosofia do empresário de uma forma geral, sempre será estimular ao máximo a competitividade e o egocentrismo e privar a população de se desenvolver harmoniosa e igualitariamente. É difícil imaginar que em um sistema onde o principal objetivo é lucrar, lucrar e lucrar, poderá existir uma comunidade sem acentuados desequilíbrios sociais.

A eleição do empresário nos leva de volta ao curral eleitoral da República Velha. Curral eleitoral, político, cultural e social no qual teremos que conviver. Será assim: "Ame-o ou deixe-o". O desenvolvimento acontecerá de acordo com as crenças dessa elite vencedora da Goianésia do século XXI, mas a ideologia será a mesma da Princesinha do Vale da década de 80 do século passado. Você novamente será definido em Goianésia pela sua condição de contra ou a favor deles, em detrimento das suas qualidades e valores. Infelizmente, um “embarcadouro” eleitoral  para o grupo e seus súditos por uns 12 anos ou mais.

Na Idade Média, o riso era proibido. Hoje, na “Goianésia dos Lage”, talvez não possamos rir mais. Ou talvez, rir somente do que é permitido.

 

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