O roteiro parecia pronto para ser diferente. Carlo Ancelotti havia trazido uma nova esperança, o Brasil crescia ao longo da Copa do Mundo e chegava às oitavas acreditando que poderia iniciar uma caminhada rumo ao hexa.
Mas tudo não passou de mera ilusão….
O Brasil parece preso a uma sina que já perdura mais de duas décadas. Pela sexta vez consecutiva, na primeira oportunidade que enfrentamos uma equipe europeia no mata-mata de Copa, caímos.
Tem sido assim desde 2006. Ontem, é claro, não foi diferente.
A derrota por 2 a 1 para a Noruega, em Nova Jersey, encerrou a pior campanha brasileira em Copas do Mundo desde 1990, interrompendo uma sequência de oito participações consecutivas chegando, no mínimo, às quartas de final.
Para além disso, ampliou para ao menos 28 anos o jejum sem conquistar um mundial — a maior seca da história da Seleção Brasileira desde que ela foi campeã pela primeira vez, em 1958. Provavelmente você (como o redator que está escrevendo este texto), não viu o nosso país campeão do mundo.
Quando perde, a culpa é do técnico
Este é parte de um velho ditado muito utilizado no futebol. Para a eliminação brasileira na Copa, ele parece se aplicar perfeitamente.
Toda derrota requer culpados — pelo menos sempre foi assim para a opinião pública brasileira. Obviamente a palavra está no plural, mas o grande responsável pela derrota de ontem já foi escolhido pela torcida: Carlo Ancelotti.
Sim, o mesmo aclamado pelo povo há seis dias. O futebol tem dessas. Dias de herói. Dias de vilão. Ontem foi a vez da principal estrela desta seleção, porque não, ser muito cobrada.
Desde o apito inicial, o plano brasileiro era claro.
Ancelotti abriu mão da posse de bola para atacar em velocidade. O Brasil aceitava ficar sem a bola, esperava a Noruega avançar e tentava explorar os espaços deixados nas costas da defesa.
Não por acaso, os noruegueses tiveram impressionantes 80% de posse nos primeiros 10 minutos e terminaram a partida com 66%, enquanto o Brasil registrou apenas 34% — a menor posse da Seleção em um jogo de Copa desde, pelo menos, 1966.
Durante boa parte do primeiro tempo, o plano até funcionou.
Rayan pressionava a saída adversária, e Martinelli e Vini Jr. encontravam espaços. Foi assim que Matheus Cunha sofreu o pênalti e deu a chance perfeita do Brasil abrir o placar.
A crucial e questionável decisão
A Copa de 2022 acabou para a seleção com o povo brasileiro atordoado porque Neymar não cobrou o primeiro pênalti contra a Croácia. Quase quatro anos depois, as penalidades voltaram a nos assombrar.
Para a surpresa de 99% dos espectadores, Bruno Guimarães foi o escolhido para a cobrança. O meia — que havia batido quatro dos seus últimos cinco pênaltis no canto direito — escolheu o mesmo lado. A previsibilidade do meia custou caro, e Nyland defendeu.
Na entrevista coletiva pós-jogo, Ancelotti justificou a escolha por Guimarães em vez de Vini Jr.
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Fizemos uma estatística de um ano de jogadores rivais e dos nossos. O melhor a bater o pênalti é Neymar, depois Igor Thiago, depois Raphinha, depois Bruno Guimarães, depois Martinelli. Escolhemos Bruno Guimarães porque pensamos que era o melhor no campo.
Carlo Ancelotti.
O curioso é que o meia havia cobrado apenas três penalidades em tempo normal em toda a sua carreira. Embora tivesse 100% de aproveitamento, a frequência pareceu baixa quando comparado com Vini Jr., muito mais acostumado a esse tipo de situação.
Depois disso, o jogo mudou
Sem transformar seu melhor momento em vantagem, o Brasil permaneceu excessivamente confortável em entregar a bola à Noruega.
Na volta do intervalo, Endrick perdeu uma oportunidade clara cara a cara com o goleiro em seu primeiro lance — essa análise mostra bem o motivo do erro do atacante.
As substituições feitas por Ancelotti acabaram enfraquecendo a equipe. A entrada de Neymar e Danilo Santos reduziu a intensidade da pressão sem bola, o que fez o Brasil perder profundidade pelos lados.
Em contrapartida, a Noruega cresceu.
Até que bastou o que ela faz melhor: colocar a bola na cabeça e nos pés do extraterrestre Erling Haaland. Em menos de 10 minutos, o cometa acabou com o Brasil com dois gols.
Tudo isso mesmo tocando somente 30x na bola durante toda a partida — apenas Alisson participou menos do jogo. Mesmo assim, marcou duas vezes.
O norueguês pode ser facilmente considerado o jogador mais letal do planeta. Entre os atletas com +10 finalizações nesta Copa, Haaland lidera com folga o índice de conversão: 41%. Messi aparece com 29%, Harry Kane com 28%, Mbappé com 27% e Vini Jr. com 24%.
O que isso quer dizer? Que a cada cinco chutes do “Cometa”, dois acabam no fundo das redes.
No fim, Neymar até descontou para o Brasil, mas já era tarde demais. A expectativa de repetir o roteiro de 1994 foi para o espaço. Nestes 32 anos, o futebol mudou. A seleção brasileira mudou.
O que sobrou para nós? Exaltar as cinco estrelas que temos no peito. Vivemos presos ao passado, enquanto o presente e o futuro ainda trazem mais desconfianças do que esperanças.
O sonho do hexa foi adiado mais uma vez…