Notícia “DEZ COISAS QUE LEVEI ANOS PARA APRENDER E A CARTA DE OLÍVIA”
13 de maio de 2013 - Orcedino Junior
“DEZ COISAS QUE LEVEI ANOS PARA APRENDER  E A CARTA DE OLÍVIA”

 

Artigo 117 do Grão Mestre Barbosa Nunes publicado no Jornal Diário da Manhã, edição de 04 de maio de 2013.

Fiquei muito gratificado pela repercussão positiva do último artigo “Jonas e a carroça vazia”. Recebi centenas de e-mails, telefonemas e inúmeros cumprimentos pessoais. Pela lição de ética contido, por via simbólica, na simples narrativa e de autoria desconhecida, que na verdade é rica como mensagem explícita de convite à meditação, para uma correção de vida. Pela oportunidade de expor com suas qualidades, um cidadão maçom e respeitável profissional, como Jonas Alves de Rezende Neto e pela citação de figuras históricas que contribuíram no avançar da estrada de ferro em Goiás, através da célula fundada em 1937 e planejada 10 anos antes, Loja Maçônica “Amor e Luz”, de Pires do Rio. Com este de hoje, chego a 117 artigos publicados no “Caderno Opinião Pública”, do “Diário da Manhã”, espaço livre para o povo, único da imprensa brasileira, que ocupo em parte com cuidado e responsabilidade, procurando corresponder a confiança deste Diário e dos amigos que me distinguem com suas qualificadas leituras de todos os sábados.

Hoje, falo de dois “Veríssimos”, pai e filho, marcados eternamente na literatura brasileira. Começo pelo filho, Luis Fernando Veríssimo, escritor, nascido em Porto Alegre em 26 de setembro de 1936, conhecido, apreciado e grandiosamente lido pelas suas crônicas, em especial, de sátiras de costumes. É cartunista, tradutor, roteirista de televisão, autor de teatro e romancista, com mais de 60 títulos publicados. É o escritor que mais vende livros no Brasil. Um dos mais populares intelectuais brasileiros contemporâneos, filho de outro grande escritor, Érico Veríssimo.

Destaco seu texto, entre centenas e centenas de outros tantos, um extremamente crítico no seu lado mais positivo e que também é uma lição, intitulado “Dez Coisas que Levei Anos Para Aprender”. Leia com muita atenção e repita a leitura, fazendo a sua avaliação e crítica, de 1 a 10.

“1. Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom, não pode ser uma boa pessoa. 2. As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas com você, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas. 3. Ninguém liga se você não sabe dançar. Levante e dance. 4. A força mais destrutiva do universo é a fofoca. 5. Não confunda nunca sua carreira com sua vida. 6. Jamais, sob quaisquer circunstâncias, tome um remédio para dormir e um laxante na mesma noite. 7. Se você tivesse que identificar, em uma palavra, a razão pela qual a raça humana ainda não atingiu (e nunca atingirá) todo o seu potencial, essa palavra seria “reuniões”. 8. Há uma linha muito tênue entre “hobby” e “doença mental”. 9. Seus amigos de verdade amam você de qualquer jeito. 10. Nunca tenha medo de tentar algo novo. Lembre-se de que um amador solitário construiu a Arca. Um grande grupo de profissionais construiu o Titanic”.

Agora deixo o filho que seguiu os passos, para falar do pai e também escritor, Érico Veríssimo, que nasceu em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, em 1905 e faleceu subitamente em 1975.

Um dos mais influentes e populares do Brasil. Tem mais de 30 livros em sua bibliografia. Os críticos e analistas literários dividem a sua obra em três grupos: Romance urbano, Romance histórico e Romance político. No primeiro, com a publicação dos livros “Clarissa”, “Caminhos cruzados” e “Um lugar ao sol”. No segundo, “O tempo e o vento”, marcante também em telenovela. No terceiro, “O senhor embaixador”, escrito durante o período da Ditadura Militar, de 1964, quando denuncia os males do autoritarismo e as violações dos direitos humanos.

A marca forte que ele me deixou durante a minha juventude foi do romance escrito em 1938, “Olhai os lírios do campo”, baseado no título Sermão da Montanha. Apresenta a tragédia de um homem dividido entre o amor, a ambição, a consciência e as alianças sociais, uma relação problemática do homem com a sociedade.

Narra a história de Eugênio, um rapaz de origem humilde que sente vergonha de sua família por ser pobre e no dia de sua formatura em Medicina, conhece Olívia, que se torna para ele um porto seguro em seus conflitos. Juntos vão trabalhar no Hospital do Coração e ela tenta mostrar a Eugênio que a felicidade não depende do dinheiro ou do sucesso, mas da paz que advém da boa consciência, de fazer as coisas certas e servir ao próximo.

O livro é uma expressão de fé na vida, nas pessoas, a fé que Olívia teve em Eugênio. Da carta a Eugênio, em seus últimos momentos de vida, retiro alguns parágrafos. Convido o amigo e amiga para ler e reler esta carta que é um farol iluminado, muita luz orientativa e profunda sabedoria, em momento que narra sua ida para o hospital, afirmando que pode morrer na mesa de operações. “Porque não me perdoaria a mim mesma se fosse embora dessa vida sem te dizer umas quantas coisas que não te diria se estivesse viva”.

“Há pouco sentia dores horríveis, mas agora estou sob ação da morfina e é por isto que encontro alguma tranquilidade para conversar contigo. Quero falar de ti. Lembra-te daquela tarde em que nos encontramos nas escadas da faculdade?

Hoje tens tudo quanto sonhava: posição social, dinheiro, conforto, mas no fundo te sentes ainda bem como aquele Eugênio indeciso e infeliz, meio desarvorado e amargo que subia as escadas do edifício da faculdade, envergonhado de sua roupa surrada.

Uma noite me disseste que Deus não existia porque em mais de vinte anos de vida não O pudeste encontrar. Pois até nisso se manifesta a magia de Deus. Um ser que existe mas é invisível para uns, mal e mal perceptível para outros e duma nitidez maravilhosa para os que nasceram simples ou adquiriram simplicidade por meio do sofrimento ou duma funda compreensão da vida. Dia virá em que em alguma volta de teu caminho há de encontrar Deus. Um amigo meu, que se dizia ateu, nas noites de tormenta desafiava Deus, gritava para as nuvens, provocando o raio. Deus é tão poderoso que está presente até nos pensamentos dos que dizem não acreditar na sua existência. Nunca encontrei um ateu sereno. Eles se preocupam tanto com Deus como o melhor dos deístas”.

Conclui a linda e maravilhosa carta: “Reli o que acabo de escrever. Estou fazendo um esforço danado para não chorar. Tolice! Espero que tudo corra bem e que dentro de duas semanas eu esteja queimando esta carta que já agora me parece um pouco melodramática.

Antes que me esqueça: na gaveta da cômoda há um maço de cartas que te escrevi de Nova Itália expressamente para “não te mandar”. Agora pode lê-las todas. Não encontrarás nada do meu passado, do qual nunca te falei e sobre o qual tiveste a delicadeza de não fazer perguntas. É pena. Gostaria que soubesses tudo, que visses como minha vida já foi feia e escura e como lutei e sofri para encontrar a tranquilidade, a paz de Deus.

Adeus. Sempre me aborreci com as cartas de romance que terminam de modo patético. Mas permite que eu escreva. Tua para a eternidade. Olívia"

Barbosa Nunes, advogado, ex-radialista, membro da AGI, delegado de polícia aposentado, professor e Grão-Mestre da Maçonaria Grande Oriente do Estado de Goiás – barbosanunes@terra.com.br.


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