Notícia De “ladrão” e “cúmplice” a aliado: Caiado muda o tom e declara apoio a Flávio Bolsonaro
06 de outubro de 2026 - Orcedino Júnior
De “ladrão” e “cúmplice” a aliado: Caiado muda o tom e declara apoio a Flávio Bolsonaro

A política brasileira acaba de ganhar mais um daqueles capítulos que desafiam a memória — e, principalmente, a paciência — do eleitor.

Depois de receber 2.605.148 votos, correspondentes a 2,18% dos votos válidos para presidente nas eleições de 2026, Ronaldo Caiado (PSD) decidiu declarar apoio a Flávio Bolsonaro (PL).

Até aí, seria apenas mais uma aliança política. O detalhe é que, durante a campanha, Caiado fez questão de construir uma distância considerável do agora apoiado.

E não foram críticas discretas.

Em 23 de setembro, Caiado atacou Flávio e Lula pela ausência em um debate, classificando os dois como “os mais rejeitados e fujões”. Segundo ele, ambos estariam “enclausurados e com medo de encarar os escândalos de frente”.

Na mesma ocasião, o então candidato do PSD questionou Flávio sobre o caso “Dark Horse”, as emendas para milicianos e sua relação com o dono do Banco Master.

No dia seguinte, Caiado voltou ao ataque. “Quem tem teto de vidro não pode jogar pedra nos outros, Flávio”, escreveu.

E não parou por aí. Ao comentar a viagem de Flávio com a família em um jatinho do dono do Banco Master, em janeiro de 2025, Caiado afirmou que viajar no avião, receber dinheiro e jantar com quem teria lesado milhões de aposentados não seria “coincidência”, mas “cumplicidade”.

O discurso durante a campanha era igualmente contundente.

Para se diferenciar de Flávio Bolsonaro, Caiado chegou a afirmar: “Tanto faz roubar com a mão esquerda ou a direita: quem rouba é ladrão.”

A frase foi repetida na sabatina do SBT, quando declarou que quem tivesse roubado “com a mão esquerda ou com a direita” não poderia, no dia seguinte, reivindicar autoridade para combater o crime.

Agora, pouco tempo depois, o cenário mudou.

O homem que era chamado de “fujão”, que deveria “sair da toca”, que precisava explicar o “inexplicável” e cuja relação com determinadas figuras políticas era classificada por Caiado como “cumplicidade” passou a contar com o apoio do próprio crítico.

É a política em seu estado mais puro: o adversário de ontem pode ser o aliado de hoje — e, aparentemente, sem necessidade de pedir desculpas ao eleitor pelo caminho percorrido.

Não há nada de ilegal em mudar de opinião. Políticos podem rever posições, fazer alianças e até descobrir virtudes onde antes enxergavam problemas. Isso faz parte do jogo democrático.

Mas o eleitor também tem o direito de fazer uma pergunta incômoda: o que mudou tanto em tão pouco tempo?

Mudou Flávio Bolsonaro? Mudou Caiado? Mudaram as circunstâncias? Ou mudou apenas o cálculo político?

A resposta, por enquanto, fica por conta dos protagonistas.

Ao eleitor resta apenas tentar acompanhar a velocidade das curvas ideológicas. Afinal, na política, parece que o problema nunca foi andar para a direita ou para a esquerda.

O problema é quando a placa muda de lugar e ninguém avisa.

Ontem, Caiado dizia que “quem rouba é ladrão”. Hoje, declara apoio a Flávio Bolsonaro. A política, definitivamente, não é para quem sofre de falta de memória.

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