Notícia Água: a farsa do controle do consumo doméstico
27 de outubro de 2015 - Orcedino Junior
Água: a farsa do controle do consumo doméstico

A atual crise de água vem dando oportunidades para a renovação do falso discurso do controle do consumo doméstico da água e que isso resolveriam todos os problemas de abastecimento.

Montou-se uma cultura no Brasil, que o cidadão comum é o único respónsável pela escassez de água. Mas não é o que realmente acontece. Aqui vamos tentar implantar o início de uma nova visão sobre o uso da água.

De toda a água existente em nosso planeta, cerca de 97,5% é salgada e apenas 2,5% é de água doce. Desses 2,5%, podemos estimar que a reserva de água doce do nosso planeta encontra-se distribuída da seguinte maneira:

- 68,9% encontram-se congeladas nas calotas polares e nos cumes das altas montanhas;

- 29,9% localizam-se no subsolo, como em aquíferos;

- 0,9% em outros reservatórios, como nuvens, vapor d’água, etc;

- 0,3%, apenas, estão disponíveis em rios e lagos

Em todo o mundo e não menos no Brasil,  a maior parte da água que utilizamos destina-se à prática agrícola. Cerca de 70% de toda a água doce é utilizada em irrigação de plantações e, a maior parte dessa água não pode ser reaproveitada, pois encontra-se contaminada por fertilizantes e pesticidas químicos. Dos 30% restantes, aproximadamente 20% são utilizados pela atividade industrial em seus processos de produção. E menos de 10 % do restante é uilizado para consumo doméstico.

No agronegócio, apenas 40% da água desviada é efetivamente utilizada na irrigação. Os outros 60 por cento são desperdiçados, porque se aplica água em excesso, se aplica fora do período de necessidade da planta, em horários de maior evaporação do dia, pelo uso de técnicas de irrigação inadequadas ou, ainda, pela falta de manutenção nesses sistemas de irrigação.

Um fato curioso: O agronegócio não é o grande responsável por nossa alimentação, pois é voltado para exportação. Segundo o governo federal, é a agricultura familiar que leva 70% dos alimentos à mesa dos brasileiros e que promove 80% dos trabalhos no campo.

Para preservar nossa água e garantir nossa soberania alimentar precisamos fortalecer a agricultura familiar e adotar outras medidas: substituir o uso de agrotóxicos e pesticidas por fertilizantes, compostos e matéria orgânica, fazendo com que a água, o ar e os solos não sejam contaminados; utilizar a micro-irrigação para fazer uso racional da água e evitar o desperdício e implementar sistemas de armazenamento de água da chuva.

E o primordial: fiscalizar o agronegócio, através de leis, obrigando a compensar  efetivamente o passivo ambiental que produzem, a água que desperdiçam. Portanto, caro leitor,  mude a partir de hoje, a sua visão sobre o consumo de água. É claro que o uso racional é uma questão de cidadania, de cultura, de consciência ambiental com o nosso planeta e as futuras gerações. Mas nós não somos os maiores de vilões. Nem de longe. 

Por mais que pareça irreal, não é o conusmo doméstico o grande vilão. Não critique  uma dona de casa que lava a sua calçada ou senhor que lava seu carro. É preciso fechar a torneira do agronegócio. O rombo de 70% está no desperdício causado por este setor. Precisamos acabar com essa cultura de crucificar o usuário doméstico e penalizar os verdadeiros culpados. Esses dados são científicos, técnicos. Não são afirmações escritas a esmo. Você encontra essas informações nos principais sites públicos e privados sobre o assunto. 

Se você tem um caixa d´água com um vamento de 70 mm e outro de 10 mm, por que preocupar-se e diminuir o vazamento menor, negligenciando o rombo do maior? Porque é mais fácil para o governos penalizar a população, inserido essa falsa ideia de desperdício como sendo o mal da escassez de água.  Mexer com o empresário é mais difícil, diminui a geração de impostos e outros interesses são prejudicados.

 Portanto, querer jogar a responsabilidade da escassez no usuário doméstico é, no mínimo, errado. Melhor seria ir atrás do agronegócio que suporta um modelo responsável por mais de 70% do consumo de água e aonde o desperdício é muito grande. 

Orcedino Wenceslau Júnior

 

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