A conservação do Cerrado na lógica econômica

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Notadamente conhecido como região de produção de grãos e carne, o Cerrado projetou-se como fundamental na balança comercial brasileira. Somente a soja produzida localmente responde por 51% do plantio no país. A partir da década de 1970, o Cerrado transformou-se em uma nova e importante fronteira agrícola brasileira. Essa transformação impulsionou a produtividade agropecuária, tornando o Brasil um dos principais produtores mundiais de commodities.

Além das exportações, o bioma também é estratégico para a manutenção dos recursos hídricos do Brasil, pois abriga nascentes ou leitos de rios de oito bacias hidrográficas dentre as doze que existem no país. Ou seja, participa direta ou indiretamente de inúmeros outros setores econômicos. O Cerrado é ainda importante pela biodiversidade e detentor de valioso patrimônio cultural e histórico.

Apesar disso, está em um estado grave de degradação ambiental. Atualmente, a destruição e fragmentação de habitats são a maior ameaça à sua integridade: cerca de 50% do seu território já foi desmatado e aproximadamente 80% já foi modificado de alguma forma pelo homem, devido à expansão agrícola, urbana e construção de estradas. Apesar do desmatamento no Cerrado ter tido uma leve queda no último ano (2,26%) em comparação ao anterior, a média de desmatamento chega a 1 milhão de hectares por ano.

A recuperação de pastagens degradadas é uma das formas de conservar o Cerrado. Com linhas de crédito apropriadas para a recuperação, esse investimento pode se tornar uma oportunidade: estima-se que a reabilitação de 10 milhões de hectares de pastos poderia movimentar entre R$9 e R$ 17 bilhões em oportunidades para o setor produtivo e financeiro, dependendo do arranjo produtivo para essa recuperação.

Outra oportunidade é a restauração da vegetação nativa, com o desenvolvimento de modelos financiáveis para a recomposição de áreas naturais, utilizando espécies de interesse econômico para trazer retorno sobre o investimento. Os mecanismos financeiros para o produtor já existem, mas precisam ser ampliados, com novas linhas “verdes” de crédito.

Não se trata de obrigação legal, tampouco de despesa: a recuperação e reabilitação de áreas produtivas no Cerrado podem trazer retorno financeiro positivo. Estimativas indicam que 30% das pastagens do Cerrado (mais de 23 milhões de hectares de acordo com Lapig/2017) estão altamente degradadas e subutilizadas.

A degradação das áreas representa prejuízos anuais em torno de R$9,5 bilhões aos produtores (estimativas do Rally da Pecuária, 2018). Para cada produtor, há uma redução patrimonial de ao menos 50%, considerando o preço da terra com pastagens de alta capacidade de produção com baixa capacidade de produção (dados baseados em Anaulpec, 2019). Neste contexto quem mais sofre é o pequeno produtor, com áreas menores, eles perdem proporcionalmente mais, inviabilizando o negócio.

Por Fabricio de Campos, Coordenador de Finanças Verdes do WWF-Brasil

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