Andar de ônibus é, antes de tudo, uma experiência antropológica. Tão séria como conviver com a tribo Toulambi da Papua Nova Guiné. Tão séria como participar de rituais gastronômicos, religiosos e sexuais de comunidades polinésias.

Não deveria colar grau o antropólogo que não anda de ônibus. Não acredito em nenhuma palavra escrita, falada ou imaginada de um antropólogo que nunca tenha se sentado na poltrona de um buzu.

Diversas tribos povoam um ônibus em movimento. Talvez a minha favorita seja a dos pregadores. Especialmente os apocalípticos. Especialmente aqueles que salivam. Não merece minha credibilidade pregador que não saliva feito um cão raivoso. O poder está com eles. Eles possuem as esferas do dragão. Nada mais interessante que estar num ônibus quando surge, como que por teofania, um ser de camisa degola (do verbo degolar), sem grande apreço pela moda, com uma gravata de cobrador do Expresso Marly. Melhor ainda: quando, de posse de uma Bíblia já surrada, começa a borrifar verdades e salivas nos indefesos passageiros.

Há também a tribo dos vendedores. Os produtos são os mais variados: mel que cura anemia, impotência sexual e espinhela caída; doces com propriedades medicinais, alucinógenas, espirituais e calóricas; laranjas, acompanhadas de ensinamentos nutricionais valiosos; livros que abrem as portas da felicidade e nos ensinam os segredos de uma vida próspera e sadia, entre outras bugigangas desnecessárias.

Há também a tribo dos coitadinhos. Surdos que pedem moedas em troco de um alfabeto de libras. Bolivianos que tocam canções de ninar com suas flautas. Senhoras que pedem pelo amor de Nossa Senhora ajuda para fazer cirurgia de nódulo na sobrancelha. Há também os malabaristas que equilibram três laranjas no ar com apenas duas mãos. Diria Drummond: duas mãos e o sentimento do mundo. Talvez já haja em Porto Alegre ou em João Pessoa os engolidores de espada e mágicos que serram pessoas ali mesmo, ao lado da catraca do ônibus.

Há nos ônibus, especialmente nos urbanos de grandes cidades, uma variada gama de odores e sons. Nem sempre suportáveis. Há ainda os tarados, que buscam fagulhas de prazer encoxando senhoras enquanto se apoiam em uma espécie de corrimão suspenso.

Mas nada se compara àqueles que, sentados em suas poltronas, insistem em ler seus jornais e livros. Apenas observam a paisagem, como se não estivessem em uma selva de fauna abundante. Esses são os verdadeiros sádicos. Deles tenho pavor e medo. Quando desço do ônibus tento, desesperadamente, me desvencilhar deles.

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Não quero ser ressucitado
 
Acompanho com interesse e entusiasmo estudos científicos que apontam que a cada dia mais pessoas são candidatas a figurar no grupo dos centenários. Há no Brasil, segundo estimativas, mais de 10 mil homens e mulheres que ultrapassaram a marca dos 100 anos. Confesso que não tenho tal pretensão. Entre a qualidade e a quantidade, filio-me ao grupo dos que preferem a primeira. O ideal, para mim, seria viver com qualidade e dignidade até os 90 anos Talvez alguns minutos a mais.
 
Pessoalmente não creio que eu chegue a tanto. Mas vou tentar. Tabu no ocidente, a temática da morte tem sido evitada, demonizada. Morrer significa deixar de produzir, deixar de ser útil. Um delito dentro da nossa sociedade regida pelo cajado do capitalismo. O que deveria ser um direito, tornou-se um dever. Somos obrigados a viver, mesmo contra a vontade. Em nome do capitalismo, para qual toda vida que produz é sagrada, e do cristianismo, para qual a vida é um dom de Deus, diversas pessoas são submetidas a sofrimentos e torturas desnecessárias.
 
A eutanásia é considerada crime no Brasil e na maioria dos países. Pessoalmente sou amplamente favorável. Não vejo qualquer sentido em manter um doente terminal ligado a aparelhos, sem qualquer esperança de vida. Estudo norte-americano recente, feito apenas com médicos, mostra que quando o assunto é a própria morte, eles não têm dúvidas: não querem ser ressuscitados nem entubados. Conhecem como ninguém os limites do corpo humano e da medicina, por isso não vêem sentido em ser submetidos aos horrendos métodos que são obrigados a aplicar a seus pacientes.
 
Há muita coisa em jogo. Inclusive o fator financeiro. Estudos apontam que um paciente terminal de câncer, por exemplo, chega a gastar até 30% do que acumulou em toda a vida apenas no último mês de tratamento. Comungo do mesmo pensamento dos médicos. Não quero ser ressuscitado. Não quero ser ligado a aparelhos. Não quero virar um vegetal entubado. Não tenho ambição que uma enfermeira me ajude a fazer minhas necessidades. Não almejo extrema unção nem rever no leito de morte os ideais que defendi em vida. Meu ideal seria morrer nos braços da mulher amada, rodeado pelos filhos e amigos. No repouso do lar. Longe da frieza e do profissionalismo de um hospital.
 
Não posso negar os avanços da medicina. A capacidade de prolongar a vida. De curar doentes. Tudo isso tem possibilitado que pessoas vivam até os 90 anos. Até os 100. Mas há casos irreversíveis, há casos terminais. Há a impotência da ciência diante da finitude da vida. É preciso respeitar os limites do corpo humano. Como disse Rubem Alves, o corpo precisa descansar, como uma música não tem necessidade de ser tocada eternamente. Tudo carece de um fim. O que podemos desejar é que haja dignidade na partida. Não sei como nem quando vou morrer. Não sei se por câncer, por acidente ou por qualquer outra desculpa. Não sei se será na próxima semana ou em alguma semana de 2070. O que imagino que esteja sob meu comando é a forma como posso conduzir minha vida até lá. Ganhando o pão de cada dia de forma digna, amando e sendo amado, emitindo minha opinião sobre as coisas, sendo justo com meus semelhantes, conhecendo lugares interessantes, sendo feliz, enfim, eis a ambição maior.
 
Não sei o que vem depois da morte. Se é que vem alguma coisa. Para mim, honestamente, tanto faz. Minha preocupação é com o que me é palpável. A grande magia é a vida, aqui e agora. O milagre se resume a isso para mim. Em caso de um diagnóstico terminal não tenho dúvidas de que iria dispensar a inglória e inútil batalha de um hospital e suas mazelas. Minha opção será sempre a vida. Acho muito mais atraente, viver ao lado dos meus, no aconchego do lar, poucos, mas valorosos dias, sem um sofrimento desnecessário. Morrer não é uma tragédia. É apenas a última etapa de um ciclo. É a libertação, é a magia de deixar de ser. Com as esperanças de glórias transcendentais ou com os castigos eternos. Ou simplesmente, o túmulo como rota final. Não importa. Sem dignidade não há glória.
 
Anderson é poeta e jornalista
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